Quase-pinturas

Fala desenvolvida e apresentada com o artista e professor Antônio Ewbank (UNICAMP) em junho de 2024.

O prefixo “quase” é uma afirmação e negação. Do latim “como se fosse”, costuma ser usado para nomear uma coisa em relação a outra – uma partícula, cristal, escultura, pintura –, tendo características ou comportamento similares, e ainda assim mantendo sua disparidade. 
Há pelo menos meio século, definições caem mal, ou são bastante insuficientes diante da elasticidade dos meios expressivos das artes plásticas ocidentais. Características como bidimensionalidade, aplicação e composição de materiais sobre uma superfície plana, gestualidade, estaticidade, unicidade e assim por diante, dão conta de muitos trabalhos de pintura, de muitas épocas, mas não todos. 
Não há dúvidas de que as pinturas de Ad Reinhardt, sobretudo seus grids cromáticos, são facilmente reconhecíveis como obras de arte. Mas e os seus cartuns? O próprio Reinhardt considerava sua série How to Look [Como olhar], publicada pela primeira vez em 1946 no jornal PM, algo totalmente separado da sua produção em pintura. No entanto, independente do que achava Reinhardt, seus cartuns são objetos estéticos inteiros, dignos do mesmo tratamento que seus trabalhos mais consagrados. 
O interesse da conferência é discutir essas distâncias entre o conhecido, o definível e o que se produz quando se opta por nomear diferente algo, a princípio, estabelecido. O que acontece quando se chama cartuns, memes, videos, textos de quase-pinturas?

Fala apresentada na Universidade de Lisboa, a convite do professor e artista Nuno Sousa Vieira, dentro do curso de pintura, e na Universidade de Coimbra, a convite da professora e artista Rita Gaspar Vieira, dentro do programa de doutoramento, em disciplina ministrada também pelo artista António Olaio.