4 vídeos de Leslie Thornton

O tom que a maioria das pessoas
prefere para a voz feminina é um
lá bemol abaixo do dó central


organização
Cris Ambrosio, Deyson Gilbert, Frederico Filippi e Pontogor
Texto por Cris Ambrosio / Poster por Frederico Filippi

09.07 – 27.08.22

Uma urdidura de vozes, imagens, sobreposições de relatos e descrições, encruzilhadas éticas e meditações científicas surgem na produção da artista estadunidense Leslie Thornton desde o seu início na década de 70. Esta mostra, cujo título vem do primeiro filme da série “Peggy and Fred in Hell”, abrange trabalhos de diferentes momentos da carreira de Thornton e tem como foco central o experimental “There was an Unseen Cloud Moving” (1988). Nesse filme, a figura da viajante independente, nômade convertida ao Islã, poeta e romancista suíça Isabelle Eberhardt é reconstituída por meio de uma colagem de representações na qual fragmentos em rota de colisão se fundem e a verdade dos fatos é submetida ao deserto fluído das indefinições. Nessa tessitura complexa de falas, silêncios e sobreposições, reverberam conflitos de identidade, gênero e poder, concatenados à performatividade contraditória dos discursos e das imagens.

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Eixos de mistérios em forma de imagem: a areia do deserto escorrendo como água e os
músculos sopranos ondulantes. Linhas cujo cruzamento aponta para a descrição objetiva
ipsis litteris da natureza que, na sua literalidade, converte-se em enigma.

A areia em movimento acelerado mimetiza a água
escassa do deserto que, sob a forma de chuvas
e cheias de rios, causa alagamentos relâmpagos:
há quem se afogue no deserto. Assim morreu
Isabelle Eberhardt (1877 – 1904), a figura central
em There was unseen cloud moving (Havia
Uma Nuvem Não-vista Se Movendo, tradução
livre). Leslie Thornton constrói um retrato de
sobreposições da viajante independente, nômade
convertida ao Islã, poeta e romancista, apontando
para informações concomitantes, ora conflitantes,
que compõem sua amplamente documentada e
múltipla vida: a juventude na Suíça, seus escritos
em ficção e diários, sua vida na Argélia como
a persona masculina Si Mohamed. As vozes
dessa urdidura estão em constante enlaçamento,
vindas de direções movediças, sequenciando
relatos, descrições, interpretações e leituras
em uma colagem multidimensional que coloca
em evidência o próprio fazer e a composição
de sentido, que não se submetem à redução
dicotômica de Eu x O Outro. O Eu são vários,
O Outro é Eu.


Hélène Cixous, nascida na Argélia trinta anos
depois da morte de Eberhardt, é autora dos
ensaios “O Riso da Medusa” e “Sorties”, ambos
de 1975, nos quais é apontado que a história
do pensamento ocidental, necessariamente
masculina, branca, dominadora e dominante, foi
construída sob a égide da oposição, portanto, do
binarismo e da dicotomia.

Onde está ela?
Atividade/passividade,
Sol/lua,
Cultura/natureza,
Dia/noite,
Pai/mãe,
Cabeça/coração,
Inteligível/sensível,
logos/pathos

forma, convexo,
passo, avanço, semen,
progresso.
conteúdo, côncavo,
superfície — onde os
passos são galgados,
superfície de
recepção e sustentação.

Homem 

——- 

Mulher

“Sorties”, Hélène Cixous

I. Eberhardt à cavalo em Ténès, no livro de Robert Randau, Notes and Souvenirs.
Anteriormente: filmagem de cordas vocais em Peggy and Fred in Hell, que aparecem ao som da cantora peruana Yma Sumac e trechos de “Rinaldo”, de Handel. 

Também em 1975, Leslie Thornton lança
seu primeiro trabalho em vídeo, X-TRACTS.
A fragmentação da voz e do discurso em
unidades fonéticas apontará para outros tipos
de fragmentos que surgirão em seus filmes
subsequentes. Em Peggy and Fred in Hell: the
Prologue, o fragmento se dá na alternância entre
as filmagens das crianças com imagens e sons
de arquivo: é de um deles que sai o título desta
exposição. Um locutor de ares de cine reportagem
dos anos 40 categoriza e sentencia os tons de
vozes ideais dentro dos parâmetros feminino/
masculino, agudo/grave, aqui/Lá. Mas um pouco
antes, nos vemos diante de uma esfinge em forma
de cortinas-músculos ondulantes junto de uma
vocalização difícil de decifrar tanto como música,
tanto como imagem, suscitando curiosidade com
sua quase-obscena lembrança de uma vulva sem
sê-la, e estranhamento diante da forma animal que
não se deixa identificar nem classificar. O mesmo
acontece no efeito caleidoscópico do recente Cut
From Liquid To Snake. No desencontro do que se
vê e do que se escuta, duplas teimam em não se
opor. Condensações de paralelos e sincronias de
difícil assimilação descritiva escorrem pela fenda
de um espelhamento instável onde natureza e
abstração se fundem multiplexadas.


O escudo de Palas Atena foi nomeado Égide:
nele, a cabeça cortada da Medusa. A subversão
da ordem vigente – política, estética, discursiva –
pressupõe a reavaliação da lógica de pensamento
que a sustenta. A Medusa sorridente e bela, e
não terrível e decapitada, convida à escritura e ao
ressoar da voz desobediente às delimitações do
gênero: cinema hollywoodiano/cinema de autor,
vídeo experimental/vídeo de massa, vídeo caseiro/
vídeo profissional, imagem encontrada/imagem
original. A linguagem audiovisual de Leslie
Thornton entrecruza categorias, atenua contornos,
deshierarquiza, toma como O Outro a si próprio, e
como Eu o Outro.

X-TRACTS (1975)

em parceria com Desmond Horsfield
8’30’’, filme 16 mm digitalizado

Uma composição de imagens e sons que surgem do fracionamento da linguagem, corpos e instantes.A voz seccionada se torna ruído,às vezes metálico-maquínico. As cenas da autora e sua voz sugerem a autobiografia e o autorretrato,mas tendo seu formato familiar transversalizado pela experimentação com a própria tecnologia aplicada;fragmentação ritmada ao passo do sonho e da memória. X-TRACTS já aponta para a produção que virá nos anos seguintes, muito atenta a não-linearidade narrativa, ao direcionamento múltiplo das imagens.

Peggy and Fred in Hell : The Prologue (1985)

21 min filme 16 mm digitalizado,
p&b, som.
Cortesia do Electronic Arts Intermix (EAI)

Dez anos depois do seu primeiro trabalho em vídeo, Thornton dá início à série de sete capítulos que será seu trabalho mais conhecido, Peggy and Fred in Hell (1985 – 2002), filmes em que imagens de arquivo são alternadas com filmagens autorais tendo como premissa uma realidade distópica pós-apocalipse nuclear em que os irmãos Peggy e Fred, “crianças educadas pela televisão”, como diz Thornton,interagem com o seu entorno diante da câmera. Marca importante do trabalho de Thornton, ao longo dos anos os capítulos foram revisitados e revisados pela artista, constantemente alterando os materiais, fazendo com que exibições e montagens tenham um caráter único no momento em que acontecem.

There Was an Unseen Cloud Moving (1988)

61’17’’, p&b e cor, som
Cortesia do Electronic Arts Intermix (EAI)

“[Thornton] tem uma sutil e precisa sensibilidade para a natureza problemática da biografia, e ela tratou dessa questão em dois trabalhos -biografias experimentais- de Isabelle Eberhardt, a autora e viajante do século 19, uma figura espiritual/profana no norte africano colonizado, que morreu em 1904em uma enchente repentina no Saara. Sendo a tarefa de biógrafos e historiadores é . Enquanto a tarefa de um historiador ou biógrafo é separar um acúmulo desordenado e caótico de dados, uma narração coerente e palpável, Thornton opta pela estratégia oposta: permitir, dentro dos parâmetros do suporte, a colisão de informação repetitiva e contraditória,permitir que múltiplos relatos, cartas,fotografias, ficções, reconstruções docu-dramáticas, especulações puras,– por pessoas que amavam ou detestavam ou não conheciam Isabelle Eberhardt. – aparecem como elas são, sem adornos, contraditórias e sem cortes. O resultado, um trabalho em vídeo de uma hora chamado There Was An Unseen Cloud Moving(1988) revela e critica os interesses escusos da convenção, método,identidade e as presunções tácitas do “arquivo”. O trabalho se vale de uma mistura heterogênea de imagens e registros, sequências filmadas e refilmadas diretamente das telas ou transferidas de película. Isabelle é retratada por atrizes, e os incidentes de sua vida são interpretados em situações performáticas reflexivas e improvisadas. O resultado é uma rica e alusiva tapeçaria, que é ao mesmo tempo duradouramente prazerosa e teoricamente astuta”.

Thomas Zummer em Paradise
Crushed, or: “just stand in that
quicksand for a moment, this shot
won’t take long”: Some notations on
the works and life of Leslie Thornton

Cut From Liquid To Snake (2018)

26’, vídeo HD, p&b e cor, som , loop

Combinando diferentes procedências de imagens e narrações, o vídeo inicialmente contemplativo retoma a conceituação e o potencial discursivo do Bóson de Higgs, que foi parte da sua residência artística de 2019 no CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), laboratório que abriga o maior acelerador de partículas do mundo, próximo de Genebra.O caleidoscópio de formas com o voiceover delicado se desdobra em outro tema recorrente de Thornton: os efeitos da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki. Se em Peggy and Fred in Hell o apocalipse tem contornos de ficção científica, neste trabalho mais recente, os efeitos de Little Boy parido pelo Enola Gay(nome da bomba e do avião algozes de Hiroshima) sobre os habitantes são descritos por uma testemunha não-japonesa com casualidade. O interesse pela ciência contraposto ao seu potencial destrutivo reaparece, também, por uma justificativa biográfica: pai e avô de Thornton trabalharam diretamente no Projeto Manhattan. O altíssimo grau de sigilosidade, fez com que os dois cientistas se vissem obrigados a esconder tanto um do outro, quanto do resto da família, o envolvimento na operação, o que foi descoberto muito depois do final da guerra.